Uma câmera chegou às minhas mãos e algo mudou. Eu nunca tinha tido contato com aquilo antes. Ela apareceu por meio de um familiar, sem contexto, sem explicação, simplesmente estava ali, e a curiosidade veio junto.
Comecei a gravar cenas simples do cotidiano, momentos soltos, coisas que me chamavam a atenção. Não havia método nem intenção clara. O que me prendia era perceber a imagem acontecendo no tempo. Ela se movia, durava, criava uma sequência. Aquilo me puxava para dentro.
Depois vinha a parte que mais me envolvia. Em casa, tentava organizar aquelas imagens usando dois videocassetes. Rebobinava, dava play, tentava pausava no tempo certo, errava, voltava, tentava de novo. Eu não sabia, mas já estava editando. Sem técnica, sem nome para aquilo, mas fazendo escolhas. O que ficava, o que saía, quando cortar...
O resultado final nem sempre importava tanto. O que me atraía era o processo, essa tentativa constante de transformar imagens soltas em algo que fizesse sentido.
Naquele momento não existia nenhuma ideia de profissão, nem de futuro. Era curiosidade pura, descoberta, prazer. Mas olhando hoje, muita coisa já estava ali. A relação com o tempo, com a narrativa, com a imagem em movimento.
1996 foi o ano em que a imagem começou a se mover para mim.
Da escola técnica direto para o porão de uma produtora, foi assim que começou. Eu era estudante de publicidade na Escola Técnica Irmão Pedro quando, a partir da indicação de um colega, fui chamado para fazer uma entrevista de estágio em uma produtora de vídeo. Até ali, tudo o que eu tinha era curiosidade e vontade de aprender.
Na conversa contei exatamente o que fazia. Gravava os encontros da minha família com a câmera de uma tia e depois editava tudo usando dois videocassetes. Para colocar trilha sonora, inventei um cabo que ligava um rádio com CD direto no videocassete. Assim eu conseguia sincronizar música com imagem. Era tudo muito artesanal, feito na base da tentativa e do erro.
O dono da produtora ficou espantado, quase duvidou. Poucos recursos, nenhuma formação e um garoto de 16 anos dizendo que editava vídeos em casa. O estágio começava ali mesmo, com um desafio direto. A primeira tarefa era limpar o porão da produtora.
E aquele porão foi decisivo. Enquanto organizava o espaço, tive contato pela primeira vez com latas de película, projetores, equipamentos antigos e tudo aquilo que carregava a memória do audiovisual. Era um lugar esquecido, mas cheio de história. Foi limpando, organizando e ficando trancado por horas naquele espaço, que algo se assentou. O porão virou uma espécie de prova silenciosa. Eu estava disposto a ficar, a aprender, a fazer o trabalho que ninguém queria fazer.
A rotina diária era de base. Manter o estúdio e os equipamentos organizados, limpar, atender o telefone e a portaria da produtora. Eu gostava da rotina e aprendia observando. Mas o que realmente me puxava era uma sala um escura e muito fria, onde ficava um computador que todos chamavam de ilha de edição.
O mundo vivia um momento de transição. Saía do analógico e começava a migrar para o digital. As mesas de corte davam lugar aos computadores. A edição não linear ainda engatinhava e quase ninguém dominava aquele processo. E, de alguma forma, a história se repetia. Assim como eu havia aprendido com dois videocassetes, agora estava ali, diante de um computador, aprendendo algo novo.
1997 foi o ano em que a porta se abriu. Um estudante de escola pública, filho de pai pedreiro e mãe vendedora de roupas, entrou em uma produtora pelo porão e encontrou ali o começo de um caminho que nunca mais deixou.
Foi nesse período que o meu trabalho como editor começou a mudar de lugar. Ao sair da primeira produtora e entrar na minha segunda experiência profissional, passei a ter contato direto com a videoarte e com um jeito completamente diferente de pensar a imagem em movimento.
Nesse momento eu atuava como editor e foi assim que conheci o artista plástico Marcelo Gobato. O trabalho dele trazia o vídeo para um campo mais autoral e experimental, distante da lógica comercial que até então fazia parte da minha rotina. Editar aqueles materiais exigia outro tipo de escuta, outro tempo, outra atenção à imagem.
Nesse contexto, fui o editor de uma videoinstalação de autoria do Marcelo, um trabalho que acabou recebendo o Prêmio Aquisição do 7º Salão Nacional Victor Meirelles, do Museu de Arte de Santa Catarina. Mais do que o reconhecimento, o processo foi o que realmente marcou. Pela primeira vez, a edição deixava de ser apenas uma ferramenta técnica e passava a fazer parte direta da obra, como linguagem.
Esse período foi muito importante para mim porque ampliou o meu olhar. A edição continuava sendo o meu ofício, mas agora ela também era espaço de experimentação, de pesquisa e de criação artística. Comecei a entender o vídeo não só como produto, mas como pensamento, como construção sensível.
Esse encontro com a videoarte abriu caminhos que eu ainda não sabia exatamente onde iam dar, mas que mudaram para sempre a forma como eu me relacionava com a imagem, com o tempo e com a narrativa.
Chegar à minha terceira produtora marcou um ponto de virada claro. A montagem já não era mais aprendizado, era ofício. Eu dominava a edição e começava a entender o audiovisual como um sistema maior, onde cada detalhe precisava funcionar com precisão.
Essa produtora tinha o mercado publicitário como eixo. Campanhas grandes, prazos curtos, estruturas maiores e uma exigência técnica constante. Além de montar, era preciso finalizar. Motion graphics, correção de cor, efeitos, chroma key, ajustes finos para televisão. Tudo fazia parte do dia a dia e nada vinha pronto. Aprendia fazendo, errando, refazendo, até aquilo virar método.
O contato com as agências se intensificou. Passei a conviver com redatores, diretores de criação e atendimento, entendendo como as ideias nasciam, como eram defendidas e como precisavam chegar à tela. Esse diálogo ampliou minha visão sobre linguagem, ritmo, clareza e responsabilidade. O vídeo deixava de ser apenas expressão e passava a ser também estratégia.
Foi um ano de pressão e amadurecimento. A publicidade exigia rapidez, rigor técnico e entrega constante. E foi justamente ali que minha formação se consolidou. A ilha de edição seguia sendo casa, mas já começava a ficar claro que ela não seria o único lugar onde eu permaneceria.
Trocar de produtora já fazia parte do meu caminho, e foi assim que cheguei à minha quarta experiência profissional em pouco tempo. Esse trânsito constante acabou sendo uma escola intensa. Cada lugar trazia um método, um ritmo, uma forma diferente de pensar o audiovisual. Em 2004, fui convidado a integrar a equipe responsável por uma campanha anual de uma grande rede de lojas, assumindo toda a pós-produção do projeto.
Foi nesse contexto que conheci o Caco Souza, diretor e diretor de fotografia, que veio de São Paulo para integrar a equipe. O olhar dele vinha muito da fotografia, com uma exigência grande sobre imagem, cor e acabamento. Trabalhar ao lado do Caco fez a pós-produção ganhar outra densidade. A edição passou a ser também um espaço de refinamento visual, de escolhas mais precisas, de atenção ao detalhe.
Além da publicidade, aquele encontro abriu um outro caminho. O Caco detinha os direitos do livro 400 Contra 1, escrito por William da Silva Lima, um dos fundadores do Comando Vermelho, e estava em processo de viabilizar o longa-metragem. Como parte desse movimento, surgiu a ideia de realizar um documentário com o próprio William, usando a estrutura da equipe que já estava reunida naquele trabalho. Assim nasceu Senhora Liberdade.
Foi nesse projeto que, pela primeira vez, eu saí da ilha de edição para estar também no set. Viajei ao Rio de Janeiro e passei dois dias dentro do Presídio Ary Franco, fazendo som direto e acompanhando de perto as filmagens. O contato com o espaço, com o personagem e com aquela realidade foi intenso e transformador. Depois disso, voltei à montagem e acompanhei o filme até o lançamento.
Senhora Liberdade foi filmado em película 35mm, o que trouxe outro tipo de desafio. A montagem tinha limites claros, poucos recursos de efeito, muito corte seco. Tudo precisava ser resolvido na estrutura da narrativa. Foi a primeira vez que montei um filme nesse formato e isso mudou minha relação com o tempo, com o ritmo e com as escolhas dentro da edição.
Esse período marcou profundamente a minha trajetória. Foi o primeiro documentário em que estive envolvido em todas as etapas, do set à montagem final. Ali se abriu, de forma definitiva, um caminho que deixava de ser apenas técnico e passava a ser também autoral.
Começou a fazer mais sentido para mim estar na rua do que dentro da ilha de edição. Tudo o que eu tinha vivido até ali, editando materiais muito diferentes, acompanhando decisões de diretores, fotógrafos e produtores, foi uma grande escola. A ilha me ensinou a olhar, a escolher, a entender ritmo e intenção. Aquela experiência toda me preparava para ir a campo sabendo o que eu queria buscar com a câmera.
O projeto Olhares da Cidade nasce nesse momento. A ideia original era do Marcelo Gobato. Eu entraria como montador do filme e ajudaria também na produção. Ao longo do processo, a troca foi se aprofundando e, naturalmente, eu passei a dividir a direção com ele. Foi o primeiro filme que dirigi.
O projeto foi contemplado pelo Fumproarte, o que nos deu, pela primeira vez, a possibilidade de realizar um trabalho autoral com verba. Tanto eu quanto o Marcelo estávamos empregados naquele período, então decidimos reinvestir integralmente nossos cachês na criação do Laboratório Experimental, um espaço de vídeo e experimentação que passou a oferecer câmera e ilha de edição de forma gratuita para artistas de Porto Alegre interessados em trabalhar com vídeo, videoinstalação e processos experimentais.
Olhares da Cidade também marcou alguns encontros importantes. A direção de fotografia do filme foi assinada pelo Caco Souza, que vinha de São Paulo e já era um diretor de fotografia muito respeitado. Trabalhar com ele foi uma experiência fundamental, especialmente no cuidado com a imagem, com o enquadramento e com a luz. O filme também teve um caráter pioneiro: foi um dos primeiros trabalhos captados em HDV em Porto Alegre, num momento em que essa tecnologia ainda estava chegando.
Esse projeto marcou definitivamente a minha transição. A partir dali, a direção passou a ocupar um espaço central no meu caminho. Eu seguia montando, mas cada vez mais interessado em estar no set, em construir as imagens desde a origem. Olhares da Cidade não foi apenas um filme, foi o início de uma mudança de posição dentro do audiovisual e o primeiro passo consciente para fora da ilha e para dentro da rua.
A experiência acumulada já era grande. Eu já havia passado por quatro produtoras, participado de duas campanhas políticas e vivido uma experiência pouco comum no audiovisual: durante um ano inteiro, trabalhei dedicado a um único cliente, dentro de uma equipe completa que permaneceu junta ao longo de todo o processo. Além disso, eu já havia dirigido um documentário. Nada começava do zero.
Essa bagagem não vinha apenas da publicidade ou do trabalho diário na produtora. Ela também vinha das artes visuais, da vídeo-arte, das vídeo-instalações e de anos de experimentação autoral. Foram trabalhos que me ensinaram a pensar imagem, tempo, ritmo e espaço de outra forma, fora das estruturas tradicionais do mercado. Esse trânsito entre o comercial e o experimental ampliou meu olhar e me deu segurança para arriscar, escolher e sustentar decisões.
Esse percurso fez com que a direção surgisse de forma sólida. Durante anos, observei diretores muito diferentes dentro da ilha de edição, entendendo escolhas, processos e caminhos narrativos. Já havia sido assistente de direção, realizado vários making-ofs de grandes campanhas publicitárias e conhecido de perto a dinâmica dos sets, das equipes e da produção.
Com o lançamento de Olhares da Cidade, a forma como eu era visto mudou. A produtora onde eu trabalhava passou a me enxergar como alguém capaz de conduzir um projeto inteiro, de estar na rua, de dirigir. Foi nesse contexto que surgiu meu primeiro trabalho publicitário como diretor, uma campanha para a John Deere, que marcou essa virada de maneira muito clara.
A direção não apareceu como ruptura, mas como continuidade. Tudo o que eu tinha vivido até ali se juntava: a montagem, o set, a publicidade, o documentário e a experimentação artística. Em 2007, passei a ocupar a direção com consciência, segurança e um jeito próprio de conduzir histórias, construído ao longo de muitos anos.
Transitar entre a publicidade e o documentário passou a definir o meu trabalho. Foi justamente por essa capacidade de circular entre esses dois campos que, naquele período, fui chamado para realizar uma série de comerciais para o Governo do Estado. A proposta da comunicação era clara: falar com pessoas reais, ouvir histórias reais, construir uma narrativa mais próxima, menos encenada. Esse trabalho se estendeu ao longo de todo o ano e exigiu presença, escuta e responsabilidade. Não era apenas filmar, era criar relação, entender o tempo das pessoas e deixar que elas se reconhecessem na própria imagem.
Enquanto esse trabalho mais formal acontecia, o campo artístico seguia ativo e pulsante. Em paralelo à publicidade, eu continuava envolvido em processos experimentais, onde a imagem em movimento era colocada em diálogo direto com o corpo, o som e o espaço. Foi nesse contexto que nasceu Estados Corpóreos, espetáculo da bailarina Luciane Cócaro, um trabalho marcante na minha trajetória.
Dividíamos o palco eu, Marcelo Gobato, Luciane Cócaro, Fábio Mendes e Batista Freire. Tudo acontecia ao vivo. As imagens eram captadas, manipuladas e projetadas em tempo real, em diálogo direto com a dança. A música era executada ao vivo por Fábio Mendes, e a iluminação fazia parte da cena, com Batista Freire entrando em cena em alguns momentos. Não havia separação entre técnica e criação. Todos atuavam, todos estavam expostos, todos faziam parte da narrativa.
Esse período consolidou algo que vinha se desenhando há algum tempo. A imagem deixou de ser apenas construção posterior e passou a existir no encontro, no presente, no corpo em ação. Seja no trabalho institucional ou no palco, o que me movia era o mesmo interesse: ouvir, observar, estar junto e construir sentido a partir da experiência real.
2009 foi um ano em que publicidade, documentário e arte se cruzaram de forma muito clara, reforçando uma maneira de trabalhar que seguia se afirmando como identidade.
Contar a história das pessoas a partir do encontro passou a ocupar um lugar central no meu trabalho. Em 2010, esse modo de fazer ganhou escala dentro de uma grande campanha para o Governo do Estado, realizada por uma estrutura ampla, com vários diretores e uma direção geral coordenando o projeto.
Dentro desse contexto, era responsável pela direção dos cases que acabaram se tornando o eixo narrativo da campanha. Eram filmes baseados em histórias reais, no cotidiano e na experiência de pessoas comuns, em diferentes regiões do estado. Esse sempre foi um lugar em que me senti confortável, entrar, conversar, criar vínculo e construir a narrativa a partir da vida de quem estava diante da câmera.
Foram meses na estrada, passando por cidades pequenas, interiores e realidades muito distintas. A proposta desses filmes não era criar personagens, mas revelar trajetórias. Meu trabalho estava justamente em me inserir nesses contextos, respeitar o tempo das pessoas e transformar esses encontros em imagens que mantivessem verdade.
Esse período consolidou ainda mais a relação entre documentário e publicidade no meu percurso. A estrada virou extensão do set e a conversa passou a ser parte fundamental do processo. Não se tratava apenas de gravar, mas de compreender o espaço, o contexto e o que cada história carregava.
Toda a bagagem acumulada até ali se fazia presente. A experiência de edição, o trabalho autoral e as artes visuais se encontravam nesses projetos, que exigiam sensibilidade, escuta e responsabilidade narrativa.
2010 foi um ano intenso, de deslocamentos constantes e de afirmação de um modo de trabalhar baseado no encontro, na confiança e na história das pessoas.
Nasce minha primeira produtora, a Ziriguidum. Ela surge num momento em que eu vinha de anos trabalhando no mercado publicitário, já com experiência em grandes campanhas, mas com vontade de ampliar o campo de atuação e assumir meus próprios caminhos.
Foi ali que o endomarketing entrou de vez na minha trajetória. Eu ainda conhecia pouco esse segmento, mas a própria dinâmica da Ziriguidum me colocou diante desse desafio. Era preciso entender como comunicar para dentro das empresas, transformar estratégias internas em vídeos claros, diretos e eficientes. Aos poucos, aquilo deixou de ser novidade e virou especialização.
Durante o período de atuação da Ziriguidum, a produtora ganhou espaço no mercado de endomarketing, atendendo algumas das principais agências desse segmento no Rio Grande do Sul. Realizamos campanhas nacionais e projetos voltados também ao mercado internacional, o que ampliou nossa responsabilidade e nossa experiência.
A Ziriguidum marcou minha trajetória porque foi ali que eu assumi, de fato, a condução do meu próprio caminho profissional. Foi um período de aprendizado intenso, de estruturação e de consolidação. Foi onde eu entendi que criar também é administrar, decidir e sustentar uma produtora no dia a dia.
2013 foi um ano de transformação profunda. Um daqueles momentos em que tudo muda de lugar, por dentro e por fora. Foi o ano em que os bonecos entraram na minha vida e, com eles, um novo modo de contar histórias.
Conheci Maíra Coelho no Laboratório Experimental, onde realizávamos oficinas de vídeo, edição e experimentação. Em uma dessas oficinas, Maíra apresentou um pequeno exercício gravado com o celular: uma boneca minúscula em cena, simples e delicada, carregando um bebê em seu colo. Aquela imagem tinha uma força silenciosa, uma potência poética imediata. Ali estava algo raro, que pedia um filme.
Maíra desenvolveu o projeto e ele foi contemplado pelo Fumproarte, dando origem ao curta-metragem Retirantes, inspirado livremente no quadro Os Retirantes, de Cândido Portinari. Dirigi o filme junto com Maíra Coelho e assinei também a montagem. A obra se construiu a partir de uma técnica pouco comum no cinema brasileiro, o live motion, em que atores manipulam bonecos diretamente em cena, criando uma relação viva entre corpo, objeto e espaço. O filme também conta com uma sequência em stop motion, realizada e coordenada por James Zortea.
Retirantes percorreu um amplo circuito de festivais no Brasil e no exterior, acumulando mais de trinta prêmios nacionais e internacionais. Mais do que os reconhecimentos, o filme marcou um ponto de virada na minha trajetória. Foi ali que compreendi, de forma definitiva, a potência do cinema como linguagem sensível, política e acessível.
Durante as filmagens de Retirantes, conheci Nando Rossa, que atuava como um dos manipuladores do filme. Nando integrava o Grupo Mosaico Cultural, coletivo de teatro que, naquele período, circulava com o espetáculo Corsários Inversos, recentemente premiado pelo Prêmio Myriam Muniz. Fui convidado a acompanhar e registrar a turnê do espetáculo pelo Rio Grande do Sul e por Pernambuco.
Sem recursos para custear a viagem completa, propus seguir junto ao grupo de forma colaborativa, acompanhando toda a circulação. Foi assim que entrei definitivamente no teatro. Primeiro como responsável pelos registros audiovisuais e, pouco depois, como parte ativa do espetáculo, assumindo a função de sonoplasta.
Viajar com o grupo, montar e desmontar lonas, ocupar ruas, praças e teatros, viver o tempo do espetáculo e da estrada foi o maior aprendizado da minha vida. O contato direto com o público, com diferentes territórios e realidades ampliou de forma radical minha escuta e minha presença como artista.
2013 foi, assim, um ano de dupla transformação. De um lado, o cinema de bonecos e a direção autoral. De outro, o teatro, o corpo em cena e a coletividade. Dois caminhos que se encontraram e redefiniram minha forma de estar no mundo e de fazer imagens.
Em 2014, fui convidado a dirigir os cases de mais uma campanha política para o Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Mais uma vez, a estrada se impôs como espaço de trabalho. Viajei por diferentes regiões do estado com uma equipe, ouvindo pessoas, acompanhando suas rotinas e registrando histórias reais.
A principal diferença em relação a experiências anteriores foi o contato direto com a equipe de criação da campanha. Os roteiros nasciam já pensados a partir do meu modo de filmar e da forma como me relacionava com as pessoas diante da câmera. Isso permitiu um processo mais orgânico, em que a escuta e a presença tinham papel central.
Optamos por uma equipe mais enxuta, o que facilitava a circulação e tornava os encontros mais discretos e verdadeiros. Esse formato aproximava as pessoas e criava um ambiente de confiança, fundamental para que as histórias pudessem ser contadas com honestidade.
No segundo turno, passei a acompanhar diretamente o candidato, assumindo a direção dos principais registros. Foi um período intenso de prática, em que a linguagem construída ao longo dos anos se consolidava no campo político, sem perder o compromisso com a verdade e com o olhar humano.
2014 marcou um retorno mais profundo ao audiovisual, levando para o vídeo tudo o que eu vinha aprendendo no teatro e nas experiências de rua. A escuta, o tempo das pessoas e a relação direta com quem estava diante da câmera se tornaram ainda mais presentes no meu trabalho.
Em 2015, o Grupo Mosaico Cultural concentrou suas energias na criação de um projeto ambicioso que unia música, teatro e audiovisual. Nascia a ópera rock A Saga de um Homem Comum, desenvolvida junto à banda Capitão Rodrigo. O trabalho se desdobrou em diferentes formatos: um disco, um documentário e um espetáculo cênico que ampliava os limites da linguagem musical no palco.
Fui responsável por toda a concepção audiovisual do projeto. Assumi as projeções, a criação dos conteúdos em vídeo, a comunicação visual do espetáculo e também o design da capa do disco. O espetáculo experimentava o uso de projeções mapeadas sobre um cenário poligonal, integrando imagem, música e cena de forma orgânica.
O projeto ganhou circulação nacional. Realizamos uma turnê que passou pelo Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, levando o espetáculo a diferentes públicos e contextos. Essa circulação se estendeu até 2016 e consolidou uma fase de intensa experimentação entre palco e audiovisual.
2015 marcou um momento de aprofundamento na relação entre música e imagem, fortalecendo minha atuação em projetos híbridos e reafirmando o audiovisual como elemento central na construção de experiências cênicas e narrativas ao vivo.
Em 2016, atravessei o oceano para realizar um trabalho que me marcaria profundamente, tanto no campo da imagem quanto no contato humano. Fui convidado a integrar a equipe de um documentário que acompanhava a história de imigrantes palestinos estabelecidos na fronteira sul do Brasil, um filme que tratava da distância, da memória e dos laços mantidos entre dois territórios separados por conflitos, mas conectados por afetos.
Minha função foi a de diretor de fotografia da etapa realizada na Palestina. Estar ali significou lidar com uma paisagem completamente diferente da minha: a luz, as cores, a textura dos espaços, os cheiros, o idioma e o ritmo das cidades moldavam cada enquadramento. A experiência visual era intensa, mas o contexto exigia atenção constante. Filmávamos do lado palestino, uma presença que não era bem vista pelo exército israelense. Em diversos momentos fomos advertidos, impedidos de gravar ou orientados a nos afastar de determinados locais, o que tornava cada deslocamento um exercício de cuidado e escuta do território.
Além da dimensão política evidente, a vivência foi marcada pelo contato direto com as pessoas. Muitas vezes, a comunicação acontecia sem palavras, mediada por gestos, olhares e pela sensibilidade de perceber o tempo do outro. Presenciei manifestações, tensões nas ruas e situações que revelavam a complexidade de um lugar constantemente atravessado por conflitos.
2016 foi um ano de deslocamento físico e interno. Um período em que aprendi que filmar também é saber parar, observar e respeitar o espaço que se ocupa. Entre fronteiras, território e silêncio, esse trabalho ampliou meu entendimento sobre o papel da imagem documental em contextos sensíveis e reforçou a responsabilidade de quem escolhe contar histórias a partir da realidade do outro.
Em 2017, entrou em cena um novo momento da minha trajetória. Tornava-se cada vez mais difícil viver exclusivamente de projetos culturais. Os editais diminuíam, os financiamentos se tornavam escassos e a continuidade do trabalho exigia uma reorganização prática.
Foi nesse contexto que retomei algo que sempre esteve presente na minha vida: o vínculo com o campo. Cresci acompanhando meu pai, vivi desde cedo a realidade rural e sempre tive uma relação próxima com a agricultura. Esse universo nunca me foi estranho. Pelo contrário, fazia parte da minha formação, da minha memória e do meu olhar.
A partir dessa base, surgiu a Bumbá Produtora de Conteúdo, inicialmente instalada em uma sala que eu já ocupava no Vila Flores. O foco inicial estava nos pequenos e médios agricultores, valorizando histórias reais, processos, pessoas e o cotidiano do trabalho no campo. A proposta era produzir conteúdo com escuta, respeito e narrativa, levando para o agro a mesma linguagem humana e documental que eu já vinha desenvolvendo em outros territórios.
Com o tempo, o trabalho foi se ampliando. Passei a realizar conteúdos para diferentes segmentos do agronegócio, incluindo marcas de máquinas agrícolas, empresas de sementes, produções para TV especializada e conteúdos voltados à internet, atravessando culturas como milho, soja, hortifruti e agricultura familiar.
2017 marcou, assim, uma virada estratégica e conceitual. Não como abandono de um caminho, mas como continuidade adaptada. Um ano em que reorganizei minha forma de atuar, encontrei sustentabilidade no trabalho e reafirmei que, independentemente do segmento, meu interesse seguia o mesmo: contar histórias a partir das pessoas, dos territórios e dos processos que as atravessam.
Em 2018, meu trabalho ganhou ainda mais circulação. Com a produtora estruturada e os fluxos consolidados, passei a atuar em diferentes frentes ao mesmo tempo, ampliando clientes, parcerias e territórios de atuação.
O trabalho no agronegócio seguiu em ritmo intenso. Foi um período em que percorri regiões produtoras do país, conhecendo de perto o Cerrado, as chapadas, o interior do Brasil e diferentes realidades ligadas à produção agrícola. Essas viagens passaram a integrar meu repertório de experiências e influenciar diretamente meu olhar e minha forma de contar histórias.
Nesse mesmo período, um novo caminho se abriu: o registro de grandes eventos e produções de conteúdo voltadas a ações institucionais e de marca. Realizei trabalhos para empresas de grande porte, registrando eventos, ativações e projetos especiais, sempre mantendo o cuidado narrativo e a atenção às pessoas envolvidas.
Também segui atuando na área de endomarketing, um campo que já fazia parte da minha trajetória e que continuava dialogando com meu interesse por escuta, processos internos e comunicação direta.
2018 foi, assim, um ano de consolidação profissional. Um momento em que diferentes experiências passaram a conviver de forma mais integrada e em que meu trabalho encontrou equilíbrio entre mercado, circulação e construção de conteúdo com identidade própria.
Em 2019, voltei a direcionar parte do meu tempo e da minha energia para o trabalho autoral. Com a rotina profissional estabilizada, encontrei espaço para desenvolver projetos próprios e me envolver mais profundamente com processos criativos que iam além das demandas do mercado.
Foi um período em que atuei de forma mais próxima do Vila Flores, espaço coletivo do qual eu já fazia parte, integrando ações culturais, registros de espetáculos, encontros artísticos e projetos experimentais. Estar nesse ambiente favorecia trocas constantes e reforçava a importância do trabalho coletivo na construção de ideias.
Ao mesmo tempo, o trabalho profissional seguiu em andamento. Mantive o fluxo de produções, ampliei parcerias e continuei atendendo clientes, equilibrando a sustentabilidade do trabalho com a liberdade criativa. Essa convivência entre o autoral e o mercado passou a acontecer de forma mais orgânica.
2019 marcou, assim, um ano de respiro criativo. Um momento de reconexão com o desejo de experimentar, registrar e criar sem pressa, reafirmando o autoral como parte essencial da minha trajetória no audiovisual.
2020 começou como tantos outros anos de produção, mas rapidamente tudo se transformou. A pandemia interrompeu deslocamentos, gravações e encontros. O que parecia que duraria poucos meses se estendeu por quase um ano, exigindo uma reorganização profunda da rotina, do trabalho e da vida.
Minha companheira, enfermeira, seguia na linha de frente em um hospital, enquanto eu fazia parte do grupo de risco. A produtora manteve o espaço físico, mas cada pessoa passou a trabalhar de casa. O desafio foi aprender a operar à distância, reorganizar fluxos e manter o trabalho vivo mesmo sem estar na rua. Esse processo foi rapidamente assimilado e permitiu que a produção continuasse.
Diante da impossibilidade de gravar, encontrei novos caminhos. Passei a desenvolver cursos e formações voltadas a profissionais que já estavam em campo, especialmente no agro, ensinando técnicas de captação e edição para que os materiais pudessem ser finalizados à distância. Foi uma forma de seguir produzindo, compartilhando conhecimento e mantendo o trabalho ativo.
2020 foi um ano duro, em termos de mercado, finanças e emoção. Ainda assim, atravessei esse período com adaptação, aprendizado e resiliência. Um ano que exigiu mudança de rota, mas que reafirmou a capacidade de reinvenção diante do inesperado.
Em 2021, as produções voltaram a acontecer. Ainda com cuidados e protocolos, as equipes retornaram aos sets, os encontros presenciais foram retomados e o trabalho voltou a ocupar a rua, os deslocamentos e os espaços físicos.
O ano começou com uma grande produção, um comercial para a Graffeno, realizado no Velopark, envolvendo equipe numerosa, estrutura de produção completa e organização rigorosa. Foi um marco simbólico desse retorno, mostrando que era possível voltar a produzir com responsabilidade e planejamento.
A partir dali, as gravações, as viagens e os projetos presenciais voltaram a fazer parte da rotina. O contato direto com equipes, artistas e profissionais reapareceu, assim como os processos criativos que dependem do encontro físico, da troca e da convivência no set.
2021 marcou esse momento de transição. Um ano de retomada gradual, em que o trabalho voltou ao ritmo, os projetos ganharam continuidade e o audiovisual reencontrou seu fluxo, já adaptado a uma nova forma de produzir.
Em 2022, realizei um dos trabalhos mais importantes da minha trajetória: a direção do documentário Só Juntos. Fui procurado por José Alfredo Nahas, da Parceiros Voluntários, que carregava há anos a ideia de um filme capaz de inspirar pessoas a partir de histórias reais de liderança social.
A proposta era simples e potente. Contar a trajetória de pessoas que, em diferentes contextos e territórios, dedicam suas vidas a transformar a realidade ao redor. A partir de três personagens, o filme constrói um retrato sensível sobre engajamento, responsabilidade coletiva e a capacidade de inspirar outros a agir.
Viabilizado por meio da Lei Rouanet, o projeto permitiu algo raro no campo autoral: tempo, estrutura e remuneração justa para toda a equipe. Isso possibilitou uma imersão profunda nos personagens. Passamos uma semana em cada local, convivendo, ouvindo e acompanhando de perto o cotidiano dessas pessoas. O filme nasceu desse tempo de escuta e presença.
Só Juntos foi concebido como um documentário acessível, pensado para dialogar com públicos diversos. Um filme direto, humano e compreensível, sem perder densidade, que pudesse tocar pessoas diferentes de maneiras distintas, mas igualmente profundas.
2022 foi o ano da produção, das viagens e da construção desse filme. Um período em que pude colocar em prática tudo o que acredito sobre documentário, narrativa e responsabilidade com as histórias que escolhemos contar.
O ano de 2023 começou na ilha de edição. Foi um período dedicado à finalização e à correção de cor de Só Juntos, enquanto, ao mesmo tempo, nos preparávamos para o lançamento do filme e para o encontro com o público.
A primeira exibição aconteceu em São Paulo, em uma sessão fechada que reuniu os três personagens do documentário, patrocinadores e pessoas que contribuíram diretamente para a realização do projeto. Foi o primeiro momento de compartilhamento do filme já finalizado, marcando oficialmente seu nascimento.
Na sequência, o filme voltou às comunidades retratadas. Em Porto Alegre, Só Juntos foi exibido no telão do CEA — Centro de Educação Ambiental, em uma sessão aberta para a comunidade local, com pessoas sentadas na praça, crianças, pipoca e um clima de encontro coletivo. Em Osasco, o documentário foi apresentado na sala de cinema do Céu das Artes Camila da Silva Rossafa, em uma exibição voltada à comunidade. No Rio de Janeiro, o filme foi exibido na quadra do PPG Pavão-Pavãozinho Cantagalo, sob uma lona montada especialmente para a sessão.
O ciclo de exibições se encerrou com a estreia em Porto Alegre, no Cine Capitólio, em uma sessão lotada que reuniu público, equipe e parceiros do projeto.
2023 foi o ano em que Só Juntos encontrou as pessoas. Um período de confirmação de propósito, em que o filme cumpriu seu objetivo de gerar diálogo, identificação e emoção. Também foi um momento de alinhamento sobre os caminhos do meu trabalho, abrindo espaço para a busca por mais projetos desse tipo, centrados em escuta, presença e impacto social.
Em 2024, o Rio Grande do Sul atravessou a maior catástrofe climática da sua história. As enchentes atingiram praticamente todo o estado e transformaram a vida de milhares de pessoas.
Naquele momento, eu já havia deixado Porto Alegre e estava morando em São Jerônimo, uma cidade às margens do rio Jacuí, localizada no encontro das bacias do Jacuí e do Taquari.
A cidade ficou ilhada por semanas. O abastecimento foi interrompido, alimentos passaram a faltar, o gás de cozinha e o combustível foram racionados, e apenas veículos envolvidos em resgates conseguiam circular. Mesmo nessas condições, encontrei formas de me deslocar para registrar o que estava acontecendo.
Ao mesmo tempo, meus pais, moradores da zona norte de Porto Alegre, tiveram a casa atingida pela água e precisaram deixar o lugar onde viviam. Eu estava isolado em São Jerônimo, eles do outro lado da enchente. A preocupação era constante e atravessava cada dia daquele período.
Diante da ausência de cobertura sobre a cidade onde eu estava, decidi agir. Passei a produzir e enviar imagens diretamente para emissoras de televisão e veículos de imprensa, oferecendo material de forma voluntária para que São Jerônimo entrasse no mapa da tragédia e pudesse receber apoio e doações. Trabalhei diariamente, gravando, editando e distribuindo conteúdos, mesmo perdendo equipamentos danificados pela chuva.
Além do registro jornalístico, atuei em resgates, inclusive utilizando drone para localizar animais e áreas isoladas. Também documentei a chegada de doações e ações de apoio, contribuindo para a transparência e a prestação de contas em meio ao caos.
Depois da enchente, segui envolvido em projetos de registro da reconstrução do estado, em parceria com iniciativas da sociedade civil, empresas e instituições. Escolas, obras, ações emergenciais e processos de recuperação passaram a ser documentados, criando memória sobre o que foi vivido durante e depois da tragédia.
2024 foi um ano de trabalho intenso e de envolvimento direto com a realidade. Um período em que o audiovisual deixou de ser apenas profissão e se tornou ferramenta de urgência, escuta e responsabilidade histórica.
Em 2025, a estrada voltou a ser o eixo central do meu trabalho. Foi um ano marcado por deslocamentos constantes, colaborações com outras produtoras e atuações em diferentes frentes do audiovisual, tanto no agronegócio quanto na cultura e em projetos pessoais.
Passei a atender outras produtoras de forma mais frequente, realizando direção de fotografia, montagem e colaboração criativa em projetos diversos. Esse movimento ampliou os encontros, os territórios e também a troca de experiências, reforçando um modo de trabalho mais coletivo e menos centrado em estruturas fixas.
Entre os projetos pessoais, um deles teve um impacto profundo sobre mim: a oficina de documentário com alunos do Ensino Fundamental da Escola Municipal Heitor Villa-Lobos, realizada dentro do projeto Guatá-porã, da Orquestra Villa-Lobos. Havia muito tempo que eu não ministrava uma oficina, e o encontro com uma turma tão jovem foi, num primeiro momento, desafiador. Logo ficou evidente o potencial daqueles estudantes e a necessidade de desacelerar, observar e compreender o tempo da imagem.
A oficina foi pensada a partir do celular como ferramenta principal. A ideia era mostrar que, com o que se tem à mão, é possível contar a própria história, registrar a comunidade e compreender o documentário como instrumento de escuta, expressão e cidadania. Ao longo dos encontros, passamos por fundamentos técnicos, linguagem audiovisual e práticas de observação.
O projeto incluiu visitas a comunidades indígenas, onde os alunos puderam registrar imagens em contexto real. Esse material integrou a apresentação final da Orquestra Villa-Lobos, projetado no telão durante o concerto, ampliando o sentido de troca entre música, imagem e território.
No último encontro, levei câmeras profissionais e um drone para que os alunos tivessem contato direto com outros equipamentos, ampliando o repertório técnico e a compreensão das possibilidades do audiovisual. Também apresentei, de forma introdutória, recursos ligados à inteligência artificial, sempre com foco no uso crítico e consciente dessas ferramentas.
2025 foi um ano de síntese e abertura. Um período em que a estrada, a formação, a escuta e o desejo de compartilhar conhecimento passaram a ocupar um lugar central, apontando caminhos para os próximos anos e reforçando a importância do audiovisual como ferramenta de encontro, aprendizado e transformação.