SOBRE MIM

Trabalho com vídeo desde 1997. E quando digo vídeo, não falo de um formato específico, mas de um território amplo, vivo, em constante transformação. Minha trajetória é feita de deslocamentos. Entre linguagens, tecnologias, pessoas e contextos. Sempre me interessou a imagem em movimento como forma de escuta, de presença e de relação com o mundo.

Meu caminho não começou de maneira idealizada. Começou no trabalho prático, cotidiano. Organizando equipamentos, limpando espaços e aprendendo observando. Em um porão de produtora, entre latas de película, projetores de 16mm, Super 8 e fragmentos de 35mm, tive meu primeiro contato profundo com a materialidade da imagem. Aquele lugar, aparentemente esquecido, foi decisivo. Ali entendi que o vídeo não era um sonho distante nem um título artístico. Era um ofício possível. Um jeito concreto de seguir.

Ao longo de quase três décadas, atravessei todas as grandes mudanças do audiovisual. Do analógico ao digital. Do Beta, DV e DVCAM ao HD e ao 4K. Das ilhas físicas aos softwares, das câmeras profissionais aos celulares, e hoje às imagens geradas por inteligência artificial. Sempre atento às transformações, mas sem me deixar conduzir por elas. A tecnologia muda, mas o que importa, no fim, é o olhar. Para mim, a técnica só faz sentido quando está a serviço da narrativa, do tempo e da escuta.

O teatro teve um papel fundamental nessa construção. Foi no palco que aprendi sobre corpo, silêncio, presença e ritmo. O teatro ensinou a respeitar o tempo do outro e a entender que uma cena só acontece quando há verdade. Essa experiência atravessa tudo o que faço em vídeo. Meus trabalhos não correm atrás da imagem. Eles esperam por ela.

Ao longo desse percurso, duas presenças transformaram definitivamente minha vida. Deise, minha companheira desde sempre, é base e parceria constante. Está nas decisões grandes e nas pequenas, sustentando o cotidiano e dando equilíbrio aos processos. Em 2007, nasceu o nosso filho Pedro, e com ele uma nova percepção de tempo, futuro e criação. Pedro cresce em diálogo direto com a tecnologia, a programação e a inteligência artificial. Onde eu venho da imagem, ele vem do código. Esse encontro entre gerações amplia meu horizonte e mantém meu trabalho em movimento.

Sou fundador da Bumbá Filmes, produtora com forte atuação no campo cultural, onde desenvolvo documentários, vídeos institucionais, séries e projetos autorais. Em parceria com Marcelo Gobato, criamos o Laboratório Experimental, um espaço dedicado à criação, à formação e à pesquisa em audiovisual. Ao longo dos anos, ministrei oficinas de vídeo e documentário para diferentes públicos, muitas vezes sendo esse o primeiro contato deles com a linguagem audiovisual. A educação nunca foi um braço separado do meu trabalho. Sempre fez parte do mesmo gesto. Entre meus trabalhos autorais estão Olhares da Cidade, projeto que nasce do encontro entre vídeo, território e memória urbana, e Retirantes, trabalho que percorreu festivais, recebeu prêmios e ampliou o alcance do meu percurso. Em 2023, dirigi o documentário Só Juntos, realizado em conjunto com a Parceiros Voluntários, projeto que sintetiza muito da minha forma de trabalhar: proximidade, escuta e respeito aos processos.

Meu trabalho com vídeo não busca o espetáculo. Busca o encontro. Circula entre linguagens, formatos e contextos, sem hierarquias. Não falo sobre as pessoas. Trabalho com elas. Cada projeto é uma tentativa de entender melhor o mundo e o tempo em que vivo. Se há algo que atravessa toda a minha trajetória é a curiosidade. Pelo outro, pelos lugares, pelas histórias que ainda não foram contadas. O vídeo, para mim, segue sendo isso. Um espaço de atenção. Um gesto de presença. Um convite ao encontro.

Retrato de Juliano Ambrosini